Ciúme
O ciúme de Aleksei não tinha objeto definido; era um estado de alma que ele carregava como uma doença sem febre.
Lev Tolstói, Anna Kariênina, 1878.
Tolstói escreveu essa frase para descrever um homem que sabia, sem poder provar, que estava perdendo a mulher que amava. Não havia cena flagrada, não havia confissão, não havia evidência concreta que justificasse o estado em que vivia. Havia uma sensação; difusa, persistente, que não aumentava nem diminuía com nada que ele fizesse, que resistia à lógica e à boa vontade com a mesma indiferença. Doença sem febre; o corpo adoecido sem o sintoma que tornaria o adoecimento legítimo aos olhos de quem olhasse de fora. Essa descrição, escrita no século XIX para um personagem de ficção, é a mais precisa que existe para o ciúme que a maioria das pessoas sente e que poucas conseguem nomear com honestidade; não o ciúme de uma traição confirmada, mas o ciúme que existe antes, durante e às vezes depois de qualquer ameaça real; o estado que o sistema nervoso habita independentemente de qualquer dado objetivo que o justifique.
O que é o ciúme
O ciúme é a resposta emocional à percepção de ameaça a um relacionamento valorizado por parte de um rival real ou imaginado. Essa definição contém uma informação clínica fundamental que a versão popular do ciúme frequentemente obscurece; o ciúme depende de percepção, não necessariamente de ameaça real. O sistema nervoso não distingue bem entre ameaça objetiva e ameaça interpretada como real.
Hidehiko Takahashi em um estudo de neuroimagem com participantes submetidos a cenários induzidos de ciúme, encontraram ativação simultânea do córtex cingulado anterior; que processa dor social; e do estriado ventral; estrutura central do circuito de recompensa. O ciúme é experienciado pelo sistema nervoso como dor e como estado motivacional de alta ativação ao mesmo tempo. Ele dói e energiza para a ação; frequentemente para a ação que piora o que tentava resolver.
Os tipos de ciúme
O ciúme reativo é a resposta a uma ameaça real e concreta; a descoberta de uma infidelidade, o contato observado com um ex, uma situação que objetivamente coloca o vínculo em risco. É o tipo mais compreensível socialmente e o que mais frequentemente produz justificativa para a própria intensidade. Mesmo o ciúme reativo, no entanto, não é apenas sobre o evento externo; é sobre o que o evento ativa internamente, sobre as vulnerabilidades que toca, sobre a história que a pessoa carrega sobre perda e abandono.
O ciúme ansioso é o que opera na ausência de ameaça objetiva; o ciúme de uma mensagem não respondida, de uma risada em foto de trabalho, de uma demora que não tem explicação ainda. É produzido pelo sistema de vigilância relacional funcionando em modo de alerta permanente; varrendo o ambiente em busca de sinais que confirmem o que a pessoa mais teme. Mark Leary, em sua teoria do sociômetro publicada no Psychological Review em 1995, argumentou que o monitoramento de sinais de aceitação e rejeição social é especialmente intenso em pessoas com histórico de perda afetiva. O ciúme ansioso é frequentemente menos sobre o parceiro e mais sobre o que o parceiro representa; a prova de que se é amável, escolhível, suficiente. É o ciúme que Tolstói descreveu em Aleksei; a doença sem febre, o estado que não precisa de objeto definido para existir com intensidade total.
O ciúme possessivo organiza-se em torno do controle; a necessidade de saber, de verificar, de ter acesso, de limitar a autonomia do outro como forma de reduzir a incerteza. David Buss, em múltiplos estudos publicados no Psychological Science ao longo dos anos 1990, documentou que comportamentos de controle produzidos pelo ciúme possessivo estavam associados paradoxalmente ao aumento da probabilidade do desfecho temido; ao produzir no parceiro sensação de sufocamento e desejo de distanciamento. O ciúme possessivo destrói com as próprias mãos o que tentava preservar.
O ciúme retrospectivo é o ciúme do passado do parceiro; de relacionamentos que existiram antes de você existir nessa vida. Esse tipo tem uma lógica particularmente difícil de desmontar porque o objeto é imutável. O ciúme retrospectivo raramente é sobre o passado do outro. É sobre a própria insegurança em relação ao presente; sobre a crença de que experiências anteriores do parceiro diminuem o que existe agora, de que você é comparada a alguém que não está mais lá.
Por que sentimos ciúme
A resposta do apego é a mais completa. John Bowlby documentou que o sistema de apego humano é ativado por ameaças à disponibilidade da figura de apego; e que a intensidade da ativação é proporcional ao grau de dependência emocional em relação a essa figura. O ciúme, nessa perspectiva, é o sistema de apego fazendo exatamente o que foi construído para fazer; sinalizando com urgência máxima que o vínculo do qual se depende pode ser perdido. A intensidade do ciúme é frequentemente um mapa da profundidade do apego; e a vergonha que muitas pessoas sentem do próprio ciúme ignora que sentir ciúme intenso significa que o vínculo importa de verdade.
O que a psicologia clínica acrescenta é a dimensão da autoestima contingente. Jennifer Crocker e Lora Park, em artigo publicado no Psychological Bulletin em 2004, revisaram extensivamente a literatura sobre o estado em que o valor que a pessoa atribui a si mesma depende de confirmação externa permanente. Quando a autoestima está estruturada em torno de ser escolhida, desejada, priorizada pelo parceiro; qualquer sinal de que essa condição pode estar em risco ativa não apenas o medo de perder o relacionamento, mas o medo de perder o valor próprio que o relacionamento sustentava. O ciúme mais intenso frequentemente não é sobre o parceiro. É sobre o que seria de si mesma se o parceiro fosse embora.
O que fazer com o ciúme
A primeira coisa é distinguir o sinal do ruído. O ciúme reativo a uma ameaça concreta é informação legítima sobre algo que aconteceu no relacionamento e que merece ser nomeado e trabalhado. O ciúme ansioso recorrente sem objeto específico é informação sobre o estado interno; sobre inseguranças, sobre histórico de perda, sobre autoestima que ainda depende de validação externa. Tratar os dois da mesma forma; agindo em ambos como se fossem sobre o comportamento do parceiro; é o erro mais comum e mais custoso.
A segunda é desenvolver tolerância à incerteza. O ciúme opera pela lógica de que saber resolve; que se eu souber onde está, o que está fazendo, com quem está, o desconforto vai embora. Amy Muise, em estudos publicados no CyberPsychology and Behavior, documentou que o monitoramento do parceiro nas redes sociais estava associado a maior ciúme relacional; não menor. Cada verificação encontra nova informação potencialmente ambígua que reinicia o ciclo. O que reduz o ciúme ansioso de forma duradoura não é mais informação; é mais tolerância ao estado de não saber tudo.
A terceira é fazer a distinção entre sentir o ciúme e agir a partir dele. O ciúme como estado interno não é controlável por decisão; ele chega, ativa o sistema nervoso, produz urgência. O que é controlável é o comportamento que emerge desse estado. James Gross, em seu modelo de regulação emocional publicado no Review of General Psychology em 1998, documentou que a reavaliação cognitiva; a modificação da interpretação do evento antes que a emoção se intensifique; produz resultados superiores à supressão em termos de bem-estar e qualidade relacional. No contexto do ciúme isso se traduz em nomear o que está sendo sentido antes de agir a partir disso; tenho medo de perder você em vez de você está me traindo.
A quarta é o trabalho que só pode ser feito por dentro. Quando o ciúme é crônico, quando aparece em todos os relacionamentos com a mesma intensidade, quando não responde ao que o parceiro faz ou deixa de fazer; ele está comunicando algo sobre a pessoa que o sente, não sobre o parceiro. Sobre um sistema de apego que aprendeu cedo que presença é imprevisível, que amor tem condições, que ser suficiente é algo que precisa ser continuamente provado. Esse trabalho não se faz pela força de vontade de sentir ciúme menos. Faz-se pelo desenvolvimento gradual de uma base interna de segurança que torne o vínculo externo menos o único lugar onde se existe.
Aleksei Kariênin carregou sua doença sem febre até o fim; sem nunca conseguir nomear o que sentia de forma que Anna pudesse ouvir, sem nunca chegar à raiz do que o ciúme estava guardando. Tolstói não o absolveu nem o condenou. Apenas mostrou o custo de um estado interno que não foi atravessado a tempo.
O ciúme que você sente diz algo real; sobre o quanto o vínculo importa, sobre o que você teme perder, sobre o que ainda precisa ser construído por dentro. Conhecê-lo bem o suficiente para que seja informação; e não a força que decide o que você faz a seguir; é o trabalho que ele pede.
Referências
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Crocker, J., & Park, L. E. (2004). The costly pursuit of self-esteem. Psychological Bulletin, 130(3), 392–414. https://doi.org/10.1037/0033-2909.130.3.392
Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, 2(3), 271–299. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.3.271
Leary, M. R., Tambor, E. S., Terdal, S. K., & Downs, D. L. (1995). Self-esteem as an interpersonal monitor: The sociometer hypothesis. Journal of Personality and Social Psychology, 68(3), 518–530. https://doi.org/10.1037/0022-3514.68.3.518
Muise, A., Christofides, E., & Desmarais, S. (2009). More information than you ever wanted: Does Facebook bring out the green-eyed monster of jealousy? CyberPsychology and Behavior, 12(4), 441–444. https://doi.org/10.1089/cpb.2008.0263
Takahashi, H., Matsuura, M., Koeda, M., Yahata, N., Suhara, T., Kato, M., & Okubo, Y. (2006). Brain activations during judgments of positive self-conscious emotion and correlation with reward-related brain activity. NeuroImage, 29(3), 840–848. https://doi.org/10.1016/j.neuroimage.2005.08.019
Tolstói, L. (1878/2005). Anna Kariênina (C. Meireles, Trad.). Cosac Naify.

